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Qual seu dia, no dia de hoje?

Todo dia é dia de alguma coisa: aniversário, tragédia, salário atrasado, lembrança de quem foi, expectativa de quem há de vir, seu aniversário de namoro, o vencimento daquela prestação, nascimento de alguém famoso, show daquele cantor que você sempre quis ver, prova de matemática; todo dia é o dia de algum dia. Hoje é, também, o dia da poesia. E daí? Poesia para quê? Lembro que o Manoel de Barros diz que aquilo que não serve para nada, é ótimo para poesia . Gosto de pensar assim, sob a beleza das coisas inúteis. Poesia vale para quase tudo, só não vale para aquilo cujo nada vale. Há poesia em muita coisa, em muita gente, em muito lugar. Há poesia no caos das paisagens urbanas, nos rosto de uma criança que acredita que o mundo inteiro é dela – um dia ela vai lutar para realmente acreditar nisso – há poesia na saudade das mães, que guardam as primeiras provas e desenhos dos filhos, há poesia naquela imagem que a gente viu e não fotografou. Há poesia no que não há. Sempre que c...

O Vizinho

A vontade não era de escrever, apesar de me bater ao peito, aos neurônios e às mãos uma vontade que é uma mistura de sonho e memória, de paisagens e preocupações – e pequenas descobertas pouco importantes ou muito desimportantes. Lá fora chove, e mesmo que eu não diga que está chovendo lá fora, as coisas, materiais e imateriais, estão sendo lavadas pelas águas que caem. Mas de que adianta esta observação, se quando alguém ler essa afirmação não estiver caindo chuva alguma. A chuva tem sentido muito mais pelo cheiro, que pelo próprio estado líquido – tem pouco sabor olhar a chuva estando dentro d’algum lugar trancado em que não se pode sentir este cheiro de terra molhada, esses vapores que sempre trazem alguma lembrança. Moro sozinho e me divirto com o Vizinho, que me olha com carinho quando saio bem cedo, ou quando chego bem tarde. Às vezes jantamos ou almoçamos juntos, quando a comida sobra – ou quando cozinho para nós dois. Ele sorri, me ouve, brinca e até me dá conselhos quando...